Pulse (Rafael Caneca)

Abriu uma cerveja e colocou para tocar, no som da sala, o cd que mais o acalmava. Engraçado como, muitas vezes, um barulho para uns é exatamente o oposto para outros. Ainda assim, o melhor das trilhas sonoras não conseguia dissipar, da sua mente, o sufoco que o afligia nos últimos dias.

Um dos clichês com o qual estamos habituados a discordar é o que afirma: “o dinheiro não traz felicidade”. Há quem diga, simplesmente, que é pura bobagem. Entretanto, outro assegura que “a velhice traz sabedoria” – e o primeiro deles é dito, repetidas vezes, por senhores de cabelos brancos.

Ultimamente, seu trabalho tem sido nada mais do que isso – um trabalho. Consagrada a sua estabilidade, estava ganhando mais do que conseguira arrecadar durante a vida inteira; no entanto, isso não o satisfazia. Já ouvira falar na “crise dos 25” (assim como na crise dos 15, dos 20, dos 30, dos 35, dos 40…), mas se recusava a reduzir sua insatisfação a ideias preconcebidas de ciclos questionadores.

Abriu mais uma cerveja. O primeiro gole foi suficiente para pensar: “o que incomodava tanto?”. Talvez a a(in)comodação em que se prostrara. Sempre achou que o seu trabalho o ajudaria a mudar a realidade social – qual um sonhador, qual tantos outros que viram seus anseios juvenis serem engolidos por um cotidiano burocrático, de mera interpretação, de manutenção de “status quo”.

Visto que não, passara a desempenhar esse ofício burramente, abandonando a inteligência que tivera que desenvolver em cinco anos de faculdade. Aliás, foram quinze anos na escola, acrescidos de cinco anos de faculdade – culminando com o orgulho da família, um diploma!

Entretanto, o que faz agora? Tal qual um papagaio, repete palavras de outrem, pessoas mais experientes, preocupadas com regras tolas, necessárias para que a (des)ordem seja mantida. Está cansado disso tudo; para ajudar a arejar o pensamento, abre mais uma cerveja e, ao tomar o primeiro gole, droga! olha o relógio. Não chega nem à metade da garrafa – o adiantar da hora é suficiente para que vá dormir, caso contrário chegará atrasado ao trabalho no dia seguinte.


Rafael Caneca é escritor, um dos fundadores da Luzterr e associado da Acerva desde abril de 2016. Pretende publicar um texto todas as sextas-feiras – mas isso é uma promessa tão séria como aquela que já fizemos tantas vezes: “nunca mais eu bebo”.

“Pulse” está no seu primeiro (e até hoje único) livro solo, Tardios manuscritos juvenis, lançado em 2011.

2 comments

  • oi gente
    gostei muito desse site, parabéns pelo trabalho. 😉

  • Gio

    Boa reflexão.. rss
    É bem assim mesmo. Acabamos por nos deixar engolir por um sistema caótico, com o qual não compactuamos e que nos oprime sem oferecer reações. Nos enganamos com as “recompensas” conquistadas e não vemos que foram às custas de saúde física e/ou mental, da ausência dos amigos e família, etc. Assim, acabamos por pensar que “é assim mesmo”, que precisamos nos sacrificar para obter algum conforto e satisfazer necessidades e desejos, sem percebermos que nosso interior deve ser igualmente “construído” e fortalecido.
    A longo prazo essa negligência cobra um preço bem alto.
    Seja como for, uma cerveja gelada ajuda a clarear os pensamentos em qualquer situação.

    ;o)

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