Colcha de retalhos (Rafael Caneca)

Saio andando por aí, atordoado. Já passa das duas da manhã. Meu coração não pára de bater acelerado, e meus pensamentos, atropelando uns aos outros, insistem em inibir o raciocínio correto da mente. Ninguém nas ruas, a não ser carros bêbados voltando de farras noturnas – ou indo, ainda; quem sabe? Motoristas possíveis assassinos, pedestres certamente suicidas – existe, no mínimo, a tentativa. Assume-se o risco. Dolo eventual ou culpa consciente? E o que isso interessa a uma mera estatística?
Mas ainda não morri. Infelizmente. Ou não? É de se pensar como a felicidade é efêmera. Ora, a tristeza também. Yin yang. Dois lados da mesma moeda. Reciprocidade. São as cervejas surtindo efeito e me fazendo filosofar demais, como sempre? Ou são pensamentos há muito escondidos no recôndito da alma apenas se exteriorizando? Um pouco dos dois. Talvez.
Engraçado como, em um momento, você está lá, na felicidade. Depois, você está aqui, na tristeza, na revolta, na angústia. Uma porta foi o que separou a casa dela da rua. Claro, sempre há “ela” no meio da história. Ninguém gosta de viver sozinho. Ninguém pode. O que surpreende e faz refletir é ver que, às vezes, não há nem um motivo para isso. Atravessa-se a porta porque se quer, ação traz uma reação, lei de Newton, conseqüências. Nada vai mudar, é só uma porta… É? Viva nessa ilusão. Viva essa ilusão!
Quem sabe tudo não passe, realmente, de uma matrix, onde a vida de cada um já está programada. Ah, não. Ando vendo filme demais, como sempre. Alguns religiosos acreditam em destino. Eu acredito no meu: que eu posso mudá-lo. São só reflexões de uma mente desocupada e na sétima cerveja, espero depois poder lembrar as coisas ruins e esquecer as boas. Ora, das ruins eu tiro uma lição, as boas vão-me fazer viver uma nostalgia inútil e infrutífera. Mas são só reflexões! Reflexões de uma mente em/com fusão.
Chego à casa. Tonto. Minha? Dela? Nossa? Não sei. Só sei que preciso de uma cama. Pode ser a minha, a dela, a nossa. Para dormir. O mundo gira, principalmente aquele ao meu redor. Acho um quarto. Como roda! Minha cabeça pesa, não consigo dormir. Banheiro. Alívio.
Acordo na tarde seguinte. Dor de cabeça. Nunca mais bebo na vida. Telefone toca. Uma voz me chama para ir à casa dela para conversar. Reflexões sóbrias – mas nem por isso saudáveis – ao longo do caminho. O que será que a porta vai separar dessa vez?


Rafael Caneca é escritor, um dos fundadores da Luzterr e associado da Acerva desde abril de 2016. Pretende publicar um texto todas as sextas-feiras – mas isso é uma promessa tão séria como aquela que já fizemos tantas vezes: “nunca mais eu bebo”.

“Colcha de retalhos” está no seu primeiro (e até hoje único) livro solo, Tardios manuscritos juvenis, lançado em 2011.

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